domingo, 31 de outubro de 2010

Enfim, tinham uma rotina estafante e previsível.



Os "normais" levantavam sempre do mesmo jeito. Reclamavam da mesma maneira. Irritavam - se do mesmo modo. Xingavam com as mesmas palavras. Irritavam - se do mesmo modo. Xingavam com as mesmas palavras. Cumprimentavam os íntimos da mesma forma. Davam as mesmas respostas para os mesmos problemas. Expressavam o mesmo humor em casa e no trabalho. Tinham as mesmas reações diante das mesmas circunstâncias. Davam presentes nas mesmas datas. Enfim, tinham uma rotina estafante e previsível, que se tornara uma fonte excelente para a ansiedade, a angústia, o vazio, o enfado.



Augusto Cury, O vendedor de sonhos

Era a primeira vez que chorava, não sabia que tinha tanta água nos olhos.



- Sabe o que mais eu aprendi? Eles disseram que se devia ter alegria de viver. Então eu tenho. Eu também ouvi uma música linda, e até chorei.
- Era samba?
- Acho que era. E cantada por um homem chamdo Caruso que se diz que já morreu. A voz era tão macia que até doía ouvir. A música chamava - se "Una Furtiva Lacrima". Não sei porque eles não disseram lágrima.


"Una Furtiva Lacrima" fora a única coisa belíssima na sua vida. Enxugando as próprias lágrimas tentou cantar o que ouvira. Mas a sua voz era crua e tão desafinada como ela mesma era. Quando ouviu começara a chorar. Era a primeira vez que chorava, não sabia que tinha tanta água nos olhos. Chorava, assoava o nariz sem saber mais porque chorava. Não chorava por causa da vida que levava: porque, não tendo conhecido outros modos de viver, aceitava que com ela era "assim". Mas também creio que chorava porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até um certo luxo de alma. Muitas coisas sabia que não sabia entender.


Clarice Lispector, A hora da estrela.