terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mas tive sorte. Era sempre meu amigo.


Toda a minha vida, tive medo de homens velando sobre mim. Suponho que o primeiro homem a velar por mim tenha sido meu pai, mas ele sumiu antes que eu pudesse recordá - lo. Por alguma razão, quando eu era menino, gostava de brigar. Grande parte das vezes, eu perdia. Outro menino, às vezes coms angue pingando do nariz, erguia - se acima de mim. Muitos anos depois, precisei me esconder. Procurava não dormir, porque tinha medo de quem estaria lá quando eu acordasse. Mas tive sorte. Era sempre meu amigo. Quando estava escondido, eu sonhava com um certo homem. O mais difícil foi quando viajei para ir ao encontro dele. Por pura sorte e depois de muitas passadas, consegui. Fiquei dormindo lá por muito tempo. Três dias, disseram - me... E o que eu encontrei ao acordar? Não um homem, mas uma outra pessoa a me vigiar. Com o passar do tempo, a menina e eu descobrimos que tinhamos coisas em comum. Mas há uma coisa estranha.  A menina diz que eu pareço outra coisa. Agora moro num porão. Os sonhos ruins ainda vivem no meu sono. Uma noite, após meu pesadelo habitual, ums aombra ergueu - se sobre mim. Ela disse: - Conte - me o que você sonha. E eu contei. Em troca, ela me explicou de que eram feitos seus próprios sonhos. Agora, acho que somos amigos, essa menina e eu. Em seu aniversário, foi ela quem deu um presente - a mim. Isso me fez compreender que o melhor vigiador que eu conheci não é um homem...



Markus Zusak, A menina que roubava livros

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de



... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso.




Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres