quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira."






Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes.
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?



A insustentável leveza do ser, Milan Kundera

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Jamais achei que chegaria aos vinte anos de idade. Estou surpreso por ainda estar vivo."

 
"Minha falta de sentimento não me incomoda. Passo perfeitamente bem." A única resposta que pude dar foi: "Os homens mortos não tem dor e nada os incomoda. Você simplesmente se apagou." Pensei que este comentário o melindraria. Sua resposta suspreendeu-me. "Eu sei que estou morto", disse ele.

Erich explicou: "Quando eu era muito jovem, ficava aterrorizado com a ideia da morte. Decidi que, se já estava morto, nada tinha a temer. Assim, considerei-me morto. Jamais achei que chegaria aos vinte anos de idade. Estou surpreso por ainda estar vivo."

(Narcisismo: negação do verdadeiro self - Alexander Lowen)

sábado, 12 de março de 2011

Adeus, beleza do mundo. Beleza que me é agora remota e que eu não quero mais - estou sem poder mais querer a beleza - talvez nunca a tivesse querido mesmo, mas era tão bom!

(...)

Mas com alívio infernal eu me despeço dela.

(...)

Também a beleza do sal e a beleza das lágrimas eu teria de abandonar.


Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.
E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca - cola. Só então vestia - se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.

(...)

Mas parece - me que sua vida era uma longa meditação sobre o nada. Só que precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela.


Clarice Lispector, A hora da estrela

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Assim, têm - se passado os dias sem que eu tenha podido, até hoje, realizar as minhas esperanças.


Nunca pude aprender senão alguns rudimentos de aritmética, história e vernáculo, como o são as lições das escolas primárias. É verdade que, em casa, sempre estudei o que pude, mas meu pai era competamente avesso à minha vocação para as letras, e muitas vezes tive o desprazer de ver os meus livros e revistas queimados.

Jamais tive autores prediletos; aprazem - me todas as leituras e mesmo nunca pude estudar estilos dos outros, por diferençar muito pouco essas questões. Também o meio em que tenho vivido foi sempre árido, para mim, nesse ponto. Os meus familiares não estimulavam, como verdadeiramente não podem, os meus desejos de estudar, sempre a braços, como eu, com uma vida de múltiplos trabalhos e obrigações e nunca se me ofereceu ocasião de conviver com os intelectuais da mesma terra.

O meu ambiente, pois, foi sempre alheio à literatura; ambiente de pobreza, de desconforto, de penosos deveres, sobrecarregado de trabalhos para angariar o pão cotidiano, onde se não pode pensar em letras.

Assim, têm - se passado os dias sem que eu tenha podido, até hoje, realizar as minhas esperanças.




(Chico Xavier - Chico Xavier por Ele Mesmo)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

... sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.





Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria o que eu tivesse sido e não fui.



Clarice Lispector, A hora da estrela

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Tornava - se toda dramática e viver doía.




Ela sabia o que era o desejo - embora não soubesse que sabia. Era assim: ficava faminta, mas não de comida, era um gosto meio doloroso que subia do baixo ventre e arrepiava o bico dos seios e os braços vazios sem abraço. Tornava - se toda dramática e viver doía.




Clarice Lispector, A hora da estrela