sábado, 8 de setembro de 2012

A única coisa de que eu não dou conta, que me faz sufocar e desfalecer? Ar ruim! Ar ruim!




 - Nesta passagem, não reprimo um suspiro e uma última confidência. O que é, precisamente para mim, totalmente insuportável? A única coisa de que eu não dou conta, que me faz sufocar e desfalecer? Ar ruim! Ar ruim! Que algo malogrado chegue perto de mim; ter de cheirar as vísceras de uma alma malograda!... O que não se agüenta, de resto, de miséria, privação, mau tempo, enfermidade, cansaço, isolamento? No fundo, damos conta de todo o resto, nascidos que somos para uma existência subterrânea e combatente; chega-se sempre mais uma vez à luz, vive-se sempre outra vez sua hora de ouro da vitória - e então se está ali, tal como se nasceu, inquebrantável, tenso, pronto para o novo, para o ainda mais difícil, mais distante, como um arco que toda miséria somente retesa ainda mais. - Mas de tempo em tempo concedei-me - suposto que haja celestes concessoras para além de bem e mal - um olhar, concedei-me um olhar somente, a algo perfeito, logrado até o fim, feliz, poderoso, triunfante, e em que haja ainda algo a temer! A um homem que justifique o homem, a um caso feliz de homem, complementar e redentor, para que em função dele se possa manter firme a crença no homem!... Pois assim está: o apequenamento e igualamento do homem europeu aninha nosso maior perigo, pois essa visão cansa... Não vemos hoje nada que queira se tornar maior, pressentimos que tudo vai cada vez mais para trás, para trás, para o mais diluído, mais chinês, mais cristão - o homem, sem dúvida nenhuma, se torna cada vez "melhor"... Aqui justamente está a fatalidade da Europa - com o medo ao homem perdemos também o amor a ele, a veneração por ele, a esperança nele, e até mesmo a vontade dele. A visão do homem agora cansa - o que é hoje niilismo, se não é isso?... Estamos cansados do homem...



Para a Genealogia da Moral
Um escrito polêmico em adendo a "Paraalém do bem e do mal" como complemento e ilustração - 1887


Friedrich Nietzsche - Obras Incompletas

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