sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Não via por que pedir perdão por aquilo que era mais forte que eu mesmo.







Era o primeiro encontro falado com Deus!

Essa preparação consistia basicamente em nos ensinar o que dizer. Muitos de nós não sabiam muito bem onde tinham errado, embora tivéssemos essa sensação, devidamente estimulada pelos padres, madres e santos em geral. “Lembrem-se do mal que causaram aos seus pais e peçam perdão,” dizia padre Valentim... E eu me perguntava quem ia fazer a confissão dos meus pais por todo mal que fizeram a mim... “Lembrem-se de todos os pensamentos maus que tiveram e peçam perdão.” E “pensamentos maus” na linguagem daquele padre eram simplesmente todas as bundas, xoxotas e tetas que desejávamos.

Não via por que pedir perdão por aquilo que era mais forte que eu mesmo. Se Deus tinha posto todos aqueles desejos dentro de nós, como é que eu ia pedir perdão por aquilo que outro cara tinha aprontado pra mim? Claro que nunca discuti isso com o padre Valentim. Ia ser difícil que ele entendesse e nem eu tinha essa clareza toda na época.

Aguentei firme, me preocupando às vezes, mas quase certo de que aquela coisa de ficar pedindo perdão e desculpas tinha uma série de furos. Enquanto isso, os padres continuavam tentando nos enfiar aquele texto na cabeça, pra que o decorássemos bem.

(...)

Estava incomodado. Não via sentido naquilo. Havia uma espécie de tristeza no ar, que eu simplesmente não sentia. Os mais compenetrados eram os mais idiotas, mesquinhos, mentirosos e burros entre as crianças do bairro. Me achava tão errado e pecador como tudo e todos.


Começou. Garotos e garotas se agachavam e poucos instantes depois levantavam do confessionário, desolados. Os padres estavam deixando os caras ainda mais deprimidos. Tive uma esperança. De repente, conversando com o padre naquela casinha de madeira, quem sabe poderia sentir um pouco de arrependimento verdadeiro?!



(O amor é uma dor feliz, Fernando Bonassi)

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