terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ele estava satisfeito de ver esse corpo nu que se elevava diante de si, e cuja insegurança medrosa fazia com que se tornasse ainda mais tirânico.

Nunca ela se despira assim. A timidez, a sensação de pânico no mais profundo de seu ser, a vertigem, tudo aquilo que sentia quando se despia em frente ao rapaz (e que ela não podia dissimular na escuridão), tudo aquilo desaparecera. Permanecia diante dele, segura de si, insolente, em plena claridade, e surpresa por descobrir de repente gestos até então desconhecidos ao tirar a roupa de forma lenta e embriagadora. Atenta a seus olhares, ela tirava a roupa, uma peça depois da outra, amorosamente, saboreando cada etapa desse despojamento.

Mas em seguida, quando ficou completamente nua diante dele, pensou que o jogo não podia continuar, que ao se despojar de suas roupas havia tirado a máscara e estava nua, o que significava que era apenas ela mesma e que o rapaz precisaria tomar a iniciativa de vir na sua direção, fazer um gesto com a mão, um gesto que apagaria tudo e a partir do qual só haveria lugar para suas mais íntimas carícias. Ela estava nua diante dele e havia parado de jogar, sentia-se embaraçada, e o sorriso que na realidade pertencia somente a ela apareceu em seu rosto, um sorriso tímido e confuso.

Mas ele permanecia imóvel, não fazia nenhum gesto para acabar com o jogo. Não via seu sorriso,que no entanto era tão familiar, só via diante de si o belo corpo desconhecido de sua amiga, que ele detestava. A raiva tirava de sua sensualidade todo o verniz sentimental. Ela quis se aproximar, mas ele disse - Fique onde está, para que eu a veja bem. Desejava apenas uma coisa, tratá-la como uma prostituta. Jamais conhecera uma prostituta e a idéias que fazia delas lhe fora transmitida pela literatura e por ouvir falar. Foi essa a imagem que evocou, e a primeira coisa que visualizou foi uma mulher nua com meias pretas, dançando na tampa lustrosa de um piano. Não havia piano no quarto do hotel, apenas uma pequena mesa encostada na parede, coberta com uma toalha. Mandou que sua amiga subisse nela. Ela fez um gesto de súplica, mas...-Você foi paga para isso – disse ele.

Diante da implacável decisão que percebeu em seu olhar, ela se esforçou para prosseguir com o jogo, mas não tinha mais forças. Com lágrimas nos olhos, subiu na mesa. A mesa media quando muito um metro de comprimento por um de largura e estava bamba de pé em cima dela, sentia medo de perder o equilíbrio.

Ele estava satisfeito de ver esse corpo nu que se elevava diante de si, e cuja insegurança medrosa fazia com que se tornasse ainda mais tirânico. Queria ver esse corpo em todas as posições e sob todos os ângulos, como imaginava que outros homens o tinha visto e o veriam. Tornara-se grosseiro e sensual.Dizia palavras que ela nunca o ouvira pronunciar. Ela queria resistir, escapar desse jogo, chamou-o pelo nome, mas ele a obrigou-a a calar-se, dizendo que ela não tinha o direito de lhe falar nesse tom familiar. Acabou cedendo, transtornada, quase em pranto.Inclinou-se para a frente depois abaixou-se, obedecendo ao desejo dele, fez a saudação militar, depois um requebro para dançar um número de twist, mas, num movimento brusco,fez a toalha deslizar e quase caiu. Ele a amparou e a levou para a cama.

Abraçou-a. Ela ficou contente, pensando que o jogo sinistro terminara, que de novo iam ser como eram na realidade, quando se amavam. Quis encostar os lábios nos dele, mas ele a afastou, repetindo que só beijava as mulheres que amava. Ela explodiu em soluços. Mas nem conseguiu chorar, porque a furiosa paixão do amigo se apoderou pouco a pouco do seu corpo, terminando por abafar os gemidos de sua alma. Logo depois havia apenas dois corpos perfeitamente unidos na cama, sensuais e estranhos um ao outro. O que acontecia agora era o que ela sempre temera mais que tudo no mundo, o que sempre evitara: o amor sem sentimento e sem amor. Sabia que atravessara a fronteira proibida, além da qual se comportava sem a menor reserva e em total comunhão. Apenas experimentava, num recôndito do seu espírito, uma espécie de medo ao pensar que nunca sentira tal prazer e tanto prazer como dessa vez. – além dessa fronteira.

 
Depois tudo acabou. O rapaz afastou-se dela e puxou o comprido fio que pendia sobre a cama.A luz apagou-se. Ele não queria ver o rosto dela, sabia que o jogo terminara, mas não tinha nenhuma vontade de voltar ao universo de suas relações habituais. Tinha medo dessa volta. Permanecia ao lado dela no escuro, evitando qualquer contato com seu corpo.

Logo depois ouviu soluços abafados, num gesto tímido, infantil, a mão da moça voltou a tocá-lo, e uma voz se fez ouvir, suplicante, entrecortada de soluços, que o chamava pelo nome e dizia -Sou eu, sou eu.

Ele se calava, imóvel, e compreendia muito bem a triste inconsistência da afirmação de sua amiga, na qual o desconhecido se definia pelo mesmo desconhecido.

Os soluços se transformaram num pranto sentido, a moça ainda repetiu por muito tempo esta comovente tautologia.

-Sou eu, sou eu...

Então ele começou a pedir socorro à compaixão (e teve que chamá-la de muito longe, pois ela não estava em nenhum lugar ao alcance de sua mão) para poder consolar a moça. Tinham ainda pela frente treze dias de férias.

(Milan Kundera - Risíveis Amores)

domingo, 15 de setembro de 2013

"mas num apartamento emprestado me sinto uma puta."





– Isso me humilha – disse ela.


– O que a humilha? – perguntei.


– Que você tenha pedido um apartamento emprestado. 


– Por que pedir um apartamento emprestado humilha você? 


– Porque existe nisso alguma coisa de humilhante.


– Não tínhamos outra opção.


– Sei disso – disse ela – , mas num apartamento emprestado me sinto uma puta.


– Deus meu! Por que estar em um apartamento emprestado faz você se sentir uma puta?  Em geral as putas exercem sua profissão a domicílio e não em apartamento emprestado.


Era bobagem enfrentar racionalmente a sólida barreira do irracional do que é constituída, como se diz, a alma feminina. Desde o começo nossa discussão se realizava sob maus auspícios.



(Milan Kundera - Risíveis Amores)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Viver é poder tocar o outro.





Beijar e acariciar é sempre bom, tenhamos nós vinte ou oitenta anos. Só que são inúmeras as conspirações sociais para que isso não aconteça. Há ainda muita repressão, muita fome para ser saciada. Quando não podemos extravasar o que sentimos, acabamos jogando todas essas pulsões no trabalho, como se ele pudesse resolver as nossas carências, a necessidade de sentir o calor de outro ser. Talvez seja por isso que costumamos nos sentir atraídos toda vez que testemunhamos um acidente ou uma briga na rua. Melhor se deleitar com a infelicidade alheia do que ficar espiando o que os outros fazem e que nós gostaríamos tanto de fazer. Mas não temos coragem. 


Não ignoro a violência que assola o nosso cotidiano. Vivemos sob a égide do medo, da insegurança. De certa forma, nos sentimos esmagados por essa questão. Mas é bom pensar que isso não pode inibir um saudável despudor, não economizando nunca os contatos e os beijos. Em casa, no local de trabalho, nas ruas. Assim como quem caminha distraído e de repente se dá conta de que a morte é a impossibilidade definitiva de tocar o outro, fazendo assim com que desapareça em nós toda reserva, toda contenção. Viver é poder tocar o outro. Viver é beijar.





(O mundo é o que é – Gilmar Marcílio)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

"Minha vida não foi um romance..."











       "A minha vida foi um romance" - diziam,depois de uma pausa e um suspiro, aquelas velhinhas que apareciam antigamente nos lares a vender rendas e bordados. Não sei por que os de casa desconversavam. Por sinal que anos depois escrevi, para as consolar postumamente, um poema que começava assim: "Minha vida não foi um romance"...

        Não, a vida nunca é um romance: falta-lhe o senso da composição, o crescendo que leva ao clímax. Tudo acontece tão sem lógica e sem preparo que os seus golpes nos deixam atônitos mas de olhos secos, como se fôssemos heróis,nós que enxugamos furtivamente os olhos no escuro das salas dos cinemas - só porque o diretor do dramalhão soube desenrolar devidamente o filme.



(Mário Quintana - Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Regina Zilberman)



  'Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

 
Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

 
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!

 
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso.. de um gesto.. um olhar...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

"Que maravilha, eu nunca fiz isso, sabia? Só com você, nunca fiz com ninguém, só sabia disso por ouvir falar, nem acreditava, achei que ia ter nojo, mas com você eu não tenho, essas coisas."





A manobra de pegar no pau. Pegar no pau de forma que ele pense que é a primeira vez em que a indigitada pega num pau: nunca tomar a iniciativa e, apenas na terceira ou quarta tentativa, deixar, toda relutante e pudica, que ele puxe sua mão. E aí pegar de leve, como se estivesse tocando num bibelô de casca de porcelana, dedos hesitantes, mão quase flácida, até ele dar um risinho superior e grunhir "pode apertar". E então ele explica, e você escuta atenta e receosamente, que é natural para a mulher inexperiente pegar daquela forma, mas agora você sabe, deve-se apertar. E aí, a princípio sem muita convicção, mas logo fazendo progressos, você passa a apertar à vontade e até a abrir a braguilha dele, que naquele tempo era de botão e nunca de fecho ecler, já que fecho ecler, para os machos mais ciosos de sua machidão, era coisa de veado, abrir com dois dedos habilidosos, na hora interminável em que ele começava a meter a língua em sua orelha e babar tudo. Até hoje é um mistério para mim a razão por que os homens consideravam de rigueur meter a língua nas orelhas das mulheres no começo dos dares-e-tomares, vai ver que eles trocavam informações sobre isso e acabaram formulando um ritual. Não que eu seja absolutamente contra, mas a obrigatoriedade do lambuzamento às vezes dava uma certa exasperação ou impaciência. Depois, graças a Deus, paravam, geralmente era só nas primeiras vezes. Número dois: manobra para chupar. Isso era sempre, semprérrimo, a primeira vez. Era tal a obsessão dos homens pela primeira vez, que iam para a cama com uma mulher de quarenta e ela conseguia convencê-lo de que era a primeira vez em que chupava alguém. Que maravilha, eu nunca fiz isso, sabia? Só com você, nunca fiz com ninguém, só sabia disso por ouvir falar, nem acreditava, achei que ia ter nojo, mas com você eu não tenho, essas coisas. Ainda hoje, acredito que a maioria dos homens é assim, juventude descontraída e tudo. Outra coisa: nunca deixar que ele acabe logo na boca e, se por acaso acontecer, cuspir, lavar a boca, esfregar lenço e assim por diante. O pela primeira vez, nesse caso, era ainda mais importante do que o do chupar simplesmente. Mulheres casadas diziam aos amantes -- e muitas ainda dizem, suspeito eu -- que jamais fizeram ou fariam isso com o marido, e os cretinos acreditam, não existe coisa de que homem se gabe mais do que a amante fazer com ele o que não faz com o marido, tudo chute, armação. Sexo anal, a mesma coisa etc. etc. Oh, é a primeira vez, devagar, tá? Grandes atrizes se perdem todos os dias.



(A casa dos Budas ditosos - João Ubaldo Ribeiro)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

"Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia."







OCORRE ME uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo XIV, que Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros deste mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me ..

. . .MARCELA amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.




(Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

"Basta-lhes ter vivido um pouco para jamais poderem estar mortos"




Esta pedra que apanhaste acaso à beira do caminho
- tão lisa de tanto rolar - 
é macia como um animal que se finge de morto.

Apalpa-a... E sentirás, miraculosamente, 
a suave serenidade com que os mortos recordam...

Mortos?! Basta-lhes ter vivido
um pouco
para jamais poderem estar mortos

- e esta pedra pertence ainda ao universo deles.

Deposita-a
cuidadosamente
no chão...

Esta pedra está viva!


(Mário Quintana - Antologia Poética)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

"Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria."






O amor nunca morre de morte natural. Añais Nin estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.
No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.




(Fabrício Carpinejar;
Borralheiro - Minha viagem pela casa)