terça-feira, 23 de julho de 2013

Coragem de amar e desamar, coragem de morrer e desmorrer, coragem de cólera, da tristeza...






Na minha idade de ouro, costumava fazer – e refazer – uma hierarquia de valores e nessa hierarquia a coragem ocupava o primeiro lugar. A virtude maior. Coragem de amar e desamar, coragem de morrer e desmorrer, coragem de cólera, da tristeza – ô Deus! – até nos enterros as pessoas tão contidas, tão exemplares. Se controlando para não chorar alto porque se o choro fica forte, já vem alguém com pílula, a injeção, o analista: fechar as portas, as janelas, os buracos. Até os anjinhos de Giotto de desesperam diante de Jesus crucificado, lá estão eles no céu, arrancando os cabelos, os olhos inundados de lágrimas. Mas o homem tem que ficar no nível, sem transbordar. Sem claudicar: claudico, claudicas, claudicavi, claudicatum, claudicare. A origem naquele imperador Cláudio, que mancava. Então se a gente dá uma mancada, já vem a terapia de apoio: pisar firme. Não chore, não tussa, não ria, isto é, ria discretamente porque senão o próximo já vem pegar no seu braço, ficou de porre? Não, não é isso não, é que estou contente, com vontade de cantar, queria cantar, posso?

Medo de desafinar – ai! – que duro o julgamento desse próximo, medida de todas as coisas. Tão atento o nosso próximo. Atento e desatento: condena, absolve, aconselha, desaconselha e depois vai tomar chope, esquece. O objeto do julgamento – o réu – levando tudo tão a sério, fazendo e desfazendo. E o outro, como no poema, tirando ouro do nariz.

Neste sistema burguês, onde só tem importancia a aparência, com todos defendendo ferozmente essa aparência, incluindo-se os neuróticos mais angustiados ainda porque reprimidos – dentro desse mecanismo, comecei a superestimar a coragem. Emocionada com o rei que antes do grito da criança, “mas ele está nu!”, espontaneamente se reconhece em sua nudez, exposto por inteiro, face e coração: aqui estou.

Mudei de pensar. Melhor ainda do que ter coragem é ter senso de humor, dom mais raro. E mais nítido. Há todo um leque de ambiguidades na conceituação do comportamento corajoso, é coragem cortar os pulsos? Se atirar de um vigésimo andar? E o soldado que acerta em cheio a bomba de napalm no vilarejo e recebe medalhas e tratamento de herói – esse é um bravo? Desertar pode indicar coragem. Também ficar.

No reconhecimento do humor não há equívoco. Ou existe ou não existe e seu portador sabe disso, o portador e os que estão ao redor. Tente fingir bom humor perto de uma criança. De um cachorro. Faça aquelas caras, a voz postiçamente mansa. O cachorro vem, fareja os fluidos, sente o peso da aura – uma barra – e vai saindo com o rabo entre as pernas. Bom humor é charme e as pessoas querem ser charmosas, os políticos em primeiro lugar, não é com vinagre que se apanha mosca. Mas se esmerando embora na representação, é difícil para o fingidor sustentar por muito tempo a máscara do bom humor, o mascarado se cansa e acaba de descobrindo.

Sense of humour. Mas o que vem a ser afinal esse senso de humor? Difícil a definição. Mas sabe-se o que ele não é: não é a graça irreverente das anedotas na boa tradição lusitana ou carioca, o repertório pornográfico do anedotário oral e escrito é delirante, incluídas as histórias em quadrinhos. Mas não se trata disso: nem piada obscena nem bem-comportada. O humor também não reside no humor negro do anedotário tragicômico. Não confundir ainda o senso de humor (que pode ser adquirido e, nesse caso, maior mérito) com o humorismo profissional de teatro ou televisão, o profissional ri e faz rir por ofício. Longe do público, fecha seu repertório, está descansando. E no descanso pode ser até um mal-humorado, um chato.

Em seu estado puro, o senso de humor não é negro nem vermelho nem azul mas tem as sete cores do arco-íris numa faixa só. Nem erótico nem puritano, não tem implicações de ordem ética mas estética, o bem-humorado é um esteta. Uma filosofia de vida? Digamos, uma doce filosofia que nos permite vislumbrar uma certa graça nas coisas desengraçadas. Sem sarcasmo, que o sarcasmo é cruel. Sarcasmo é veneno. E o senso de humor é que nos impede de virarmos uma esponja de fel, a casa pegou fogo? O louco bem-humorado dá uma volta em torno, tira o cigarro do bolso que não existe e acende o cachimbo numa brasa do fogão.



(Lygia Fagundes Telles - A Disciplina do Amor)

sábado, 20 de julho de 2013

Quando se renuncia à guerra se renuncia à grande vida.

 

 


Convém ser rico em oposições, pois só assim se é fecundo; para conservar-se jovem é preciso que a alma não descanse, que a alma não solicite a paz. Não há nada que tenha chegado a ser tão estranho a nós que o que era outrora objeto dos desejos, a paz da alma que os cristãos desejavam. Hoje não desejamos o gado moral nem a ventura gorda da consciência tranquila. Quando se renuncia à guerra se renuncia à grande vida. É verdade que em muitos casos a paz da alma não é senão um equívoco, e apenas significa algo que não pode expressar-se honestamente. Sem preocupações ou preconceitos vou citar alguns casos. A paz da alma pode ser por exemplo o cintilante reflexo duma animalidade exuberante no domínio da moral (ou religioso). Ou então o princípio da fadiga, a primeira sombra que a noite lança, que lança toda espécie de noite. Ou então um signo de que o ar é úmido, que o vento do sul vai soprar. Ou o reconhecimento involuntário por uma boa digestão (denomina-se também amor à humanidade). Ou o repouso do convalescente que começa a tomar gosto outra vez pelas coisas... ou o estado de ânimo que se seque a uma intensa satisfação de nossa paixão dominante, o bem-estar duma sociedade rara, ou a caducidade de nossa vontade, de nossos desejos, de nossos vícios, ou quiçá a preguiça que por instigação da vaidade se veste de moralidade, ou o advento de alguma certeza, ainda que seja uma certeza terrível, ou a expressão da madureza e o domínio em meio à atividade, ao trabalho, à produção, ao querer, a respiração tranquila quando se atingiu a liberdade da vontade. Crepúsculo dos ídolos, quem sabe? talvez isso também se a uma espécie da paz da alma...

 

(Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo - Friedrich Nietzsche)


sábado, 13 de julho de 2013

O difícil é ser só, sem deus, sem amigo, sem amor.





Uma vez que renunciei à fé, à esperança religiosa propriamente dita e também às esperanças messiânicas que entrevira no marxismo ou no comunismo, encontrei-me só e nu, como diz Sócrates. Ou seja, ante a vida tal como ela é. Mas não creia que escolhi o desespero por gosto pela tristeza; é exatamente o contrário. Um psicanalista me escreveu, quando saiu meu primeiro livro, que apreciava seu conteúdo “porque”, dizia ele, “como psicanalista, como terapeuta, constato que a esperança é a principal causa de suicídio”. Por quê? Porque se comete suicídio sobretudo por decepção. Em outras palavras, é muito bonito esperar isto ou aquilo, seja para esta vida seja para uma outra; mas, é preciso constatá-lo, a vida não deixa de continuar! A vida como ela é: a vida real.

Ora, o que eu constato (mas como todo mundo, me parece) é que a vida, no fundo, é decepcionante. Porque ela não corresponde ás nossas esperanças. De forma que, diante das decepções que a vida não cessa de lhes infligir, muitas pessoas julgam que, se a vida não satisfaz suas esperanças, é a vida que não tem razão! E fecham-se assim vivos na amargura e no ressentimento...

A escolha do materialismo é justamente esta: em vez de dizer “Se a vida não responde às minhas esperanças, é a vida que não tem razão”, diremos “A vida faz o que ela pode!”, “A vida é pegar ou largar”. Pois não há nada demais.

O real é pegar ou largar. São minhas esperanças que, desde o início, são infundadas. Cessemos de sonhar a vida, cessemos de esperar viver... e vivamos!



(André Comte-Sponville; O alegre desespero)

segunda-feira, 8 de julho de 2013

"... o amor, por definição, é uma dádiva não merecida."

Por incrível que pareça, estou ficando excitada com toda essa confusão. Pela primeira vez na vida estou correndo, talvez, o risco de ser assassinada. Será ao lado dele. O resto que se dane.

 - Você gosta de mim, Ernesto? Jura que a gente não vai se separar nunca, haja o que houver?





Em resposta, ele lhe acariciou o pescoço e sorriu. Ai, que coisa gostosa. Cada um de nós sofre, mais ou menos, da insignificância da vida insossa que leva. E deseja, seja a que preço for, escapar do presente e dar nova dimensão à existência. O sentimento de eleição, de privilégio, está presente em toda relação amorosa, pois o amor, por definição, é uma dádiva não merecida. Ser amado, sem ter mérito para isso, é ter a prova definitiva de que um amor verdadeiro se instaurou. Se uma mulher diz a um homem: eu te amo porque você é inteligente, honesto, gentil com minha família, me dá presentinhos, não anda atrás das outras, me ajuda a lavar a louça, o homem fica frustrado. Ele mil vezes preferia que ela dissesse: sou louca por ti, nem sei por quê, você não é nenhuma inteligência rara, mente demais, é egoísta e ordinário, dorme com tudo quanto é vagabunda, eu te gosto, minha paixão, vem cá, me beija, me aperta toda.





(A dança dos desejos, opus 13 - Esdras do Nascimento)

domingo, 7 de julho de 2013

" As únicas mulheres que apreciam pau pequeno são as que, de uma forma ou de outra, têm medo de pau, seja porque sentem dor, seja porque são ruins da cabeça. "



 - ninguém me venha com essa história, muito citada por aí e até sacramentada em pesquisas pseudocientíficas, de que pau pequeno não faz diferença, claro que faz, um pau bem dimensionado preenche apropriadamente a mulher e é um visual estimulante e excitante, nada desse negócio de pau pequeno. Isto é uma das muitas balelas que nos forçam pela goela abaixo. As únicas mulheres que apreciam pau pequeno são as que, de uma forma ou de outra, têm medo de pau, seja porque sentem dor, seja porque são ruins da cabeça. A mesma coisa é pau mole. Claro, são os homens que espalham histórias terríveis sobre o que outros, nunca eles, ouviram de mulheres com quem broxaram. As mulheres, de fato, não costumam esculhambar os homens que broxam com elas, são invariavelmente compreensivas e até solidárias tanto quanto podem ser, e algumas chegam a se culpar pelo malogro. Mas mulher plenamente sadia gosta de pau duro e gosta de penetração. O resto é conversa de consolação, que até convém a algumas, que com isso ocultam o que lhes interessa ocultar. Escreva-se: a) nenhuma mulher gosta de pau mole; b) excetuadas dimensões aberrantes e as outras variáveis sendo equivalentes, o pau maior e mais vistoso é preferido. Evidente que o principal, principalíssimo, é quem é o proprietário do pau. Mas aí, se é pequeno, a mulher apenas deixa para lá, embora preferisse que fosse maiorzinho; é mais satisfatório, por alguma, ou várias, razões. Esta é que é a realidade, o resto, repito, é onda e pensamento voluntarista. Não que não haja muitos casos em que o homem de pau pequeno oferece compensações inestimáveis, mas mil vezes um pau digno desse nome, Rodolfo, Rodolfo! E nenhuma mulher sadia tem nojo de esperma, outra coisa que precisa ser bem esclarecida.


(A casa dos Budas ditosos - João Ubaldo Ribeiro)