sábado, 13 de julho de 2013

O difícil é ser só, sem deus, sem amigo, sem amor.





Uma vez que renunciei à fé, à esperança religiosa propriamente dita e também às esperanças messiânicas que entrevira no marxismo ou no comunismo, encontrei-me só e nu, como diz Sócrates. Ou seja, ante a vida tal como ela é. Mas não creia que escolhi o desespero por gosto pela tristeza; é exatamente o contrário. Um psicanalista me escreveu, quando saiu meu primeiro livro, que apreciava seu conteúdo “porque”, dizia ele, “como psicanalista, como terapeuta, constato que a esperança é a principal causa de suicídio”. Por quê? Porque se comete suicídio sobretudo por decepção. Em outras palavras, é muito bonito esperar isto ou aquilo, seja para esta vida seja para uma outra; mas, é preciso constatá-lo, a vida não deixa de continuar! A vida como ela é: a vida real.

Ora, o que eu constato (mas como todo mundo, me parece) é que a vida, no fundo, é decepcionante. Porque ela não corresponde ás nossas esperanças. De forma que, diante das decepções que a vida não cessa de lhes infligir, muitas pessoas julgam que, se a vida não satisfaz suas esperanças, é a vida que não tem razão! E fecham-se assim vivos na amargura e no ressentimento...

A escolha do materialismo é justamente esta: em vez de dizer “Se a vida não responde às minhas esperanças, é a vida que não tem razão”, diremos “A vida faz o que ela pode!”, “A vida é pegar ou largar”. Pois não há nada demais.

O real é pegar ou largar. São minhas esperanças que, desde o início, são infundadas. Cessemos de sonhar a vida, cessemos de esperar viver... e vivamos!



(André Comte-Sponville; O alegre desespero)

Um comentário:

Ariane M. Santos disse...

Olá, seu blog está de parabéns. A atmosfera daqui é inspiradora, e tudo é feito com esmero e dedicação. Dê uma conferida no meu depois, se quiser. Adorei este espaço, abraço!
http://madamshadow.blogspot.com.br/