sábado, 20 de julho de 2013

Quando se renuncia à guerra se renuncia à grande vida.

 

 


Convém ser rico em oposições, pois só assim se é fecundo; para conservar-se jovem é preciso que a alma não descanse, que a alma não solicite a paz. Não há nada que tenha chegado a ser tão estranho a nós que o que era outrora objeto dos desejos, a paz da alma que os cristãos desejavam. Hoje não desejamos o gado moral nem a ventura gorda da consciência tranquila. Quando se renuncia à guerra se renuncia à grande vida. É verdade que em muitos casos a paz da alma não é senão um equívoco, e apenas significa algo que não pode expressar-se honestamente. Sem preocupações ou preconceitos vou citar alguns casos. A paz da alma pode ser por exemplo o cintilante reflexo duma animalidade exuberante no domínio da moral (ou religioso). Ou então o princípio da fadiga, a primeira sombra que a noite lança, que lança toda espécie de noite. Ou então um signo de que o ar é úmido, que o vento do sul vai soprar. Ou o reconhecimento involuntário por uma boa digestão (denomina-se também amor à humanidade). Ou o repouso do convalescente que começa a tomar gosto outra vez pelas coisas... ou o estado de ânimo que se seque a uma intensa satisfação de nossa paixão dominante, o bem-estar duma sociedade rara, ou a caducidade de nossa vontade, de nossos desejos, de nossos vícios, ou quiçá a preguiça que por instigação da vaidade se veste de moralidade, ou o advento de alguma certeza, ainda que seja uma certeza terrível, ou a expressão da madureza e o domínio em meio à atividade, ao trabalho, à produção, ao querer, a respiração tranquila quando se atingiu a liberdade da vontade. Crepúsculo dos ídolos, quem sabe? talvez isso também se a uma espécie da paz da alma...

 

(Crepúsculo dos Ídolos ou A Filosofia a Golpes de Martelo - Friedrich Nietzsche)


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