quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Viver é poder tocar o outro.





Beijar e acariciar é sempre bom, tenhamos nós vinte ou oitenta anos. Só que são inúmeras as conspirações sociais para que isso não aconteça. Há ainda muita repressão, muita fome para ser saciada. Quando não podemos extravasar o que sentimos, acabamos jogando todas essas pulsões no trabalho, como se ele pudesse resolver as nossas carências, a necessidade de sentir o calor de outro ser. Talvez seja por isso que costumamos nos sentir atraídos toda vez que testemunhamos um acidente ou uma briga na rua. Melhor se deleitar com a infelicidade alheia do que ficar espiando o que os outros fazem e que nós gostaríamos tanto de fazer. Mas não temos coragem. 


Não ignoro a violência que assola o nosso cotidiano. Vivemos sob a égide do medo, da insegurança. De certa forma, nos sentimos esmagados por essa questão. Mas é bom pensar que isso não pode inibir um saudável despudor, não economizando nunca os contatos e os beijos. Em casa, no local de trabalho, nas ruas. Assim como quem caminha distraído e de repente se dá conta de que a morte é a impossibilidade definitiva de tocar o outro, fazendo assim com que desapareça em nós toda reserva, toda contenção. Viver é poder tocar o outro. Viver é beijar.





(O mundo é o que é – Gilmar Marcílio)

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