sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ás vezes é tão estranho ser uma pessoa.

Eu gostava muito dele, das mãos, dos pés, do hálito (mau), dos dentes (escuros), de tudo que era lindo e de tudo que era feio nele. Fantasiei telefonemas. Hesitei entre ir ao Açougue tomar mais um conhaque e vir para casa. Vim. A secretária no zero. Mas não vou ceder. Foi a ultima paixão. Paixão é o que dá sentido à vida. E foi a última. Tenho certeza absoluta disso. Agora me tornarei uma pessoa daquelas que se cuidam para não se envolver. Já tenho um passado, tenho tanta história. Meu coração está ardido de meias-solas. Sei um pouco das coisas? Acho que sim. Tive tanta taquicardia hoje. Estou por aí, agora. Penso nele, sim, penso nele. Mas não vou ceder. Certo, certo: ninguém tem obrigação de satisfazer ao teu desejo, pela simples razão de que você supõe que teu desejo seja absoluto. Foda-se seu desejo, ora. Me dói não ter podido mostrar minha face. Me dói ter passado tanto tempo atento a ele — quando ele nunca ficou atento a mim. E eu passei tanta coisa dura. Rita Lee canta “são coisas da vida”. Meu embalinho vai passando, o gosto do Strega persiste na boca. Hoje senti alguns impulsos tipo tesão, corpo fisico. As vezes é tão estranho ser uma pessoa. A gente é.

(Caio F.- Cartas)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Mas não há palavra para dizer dois corpos encostados, ou uma mão segurando um punhado de terra ou duas mãos dadas com um tanto de terra entre elas.

Há muitas e muito poucas palavras. Por exemplo: pegamos um corpo. Se continuarmos a linha que sai do lado de fora de um dos pés (isto é, do ponto de vista do próprio corpo: o lado direito do pé direito ou o lado esquerdo do esquerdo) e vai pelo chão até o outro pé, teremos a palavra planeta, que inclui o corpo. Incluídos nesse coro temos os membros. Entre os membros pernas. Dentro das pernas pés. Nos pés dedos e nos dedos unhas. Mas se dissermos unhas podem ser das mãos. Se estiverem riscando um muro diremos atrito. Então podemos estar falando de fósforos, ou de pneus. De sexo, discussões ou condutores elétricos. Assim: Mesa e cadeira são duas palavras. Móveis é uma palavra só - Coisas que se movem. Mas não há palavra para dizer dois corpos encostados, ou uma mão segurando um punhado de terra ou duas mãos dadas com um tanto de terra entre elas; como há, por exemplo, a palavra jardim para designar o conjunto de terra e plantas; ou a palavra planta para expressar a soma da parte dessa parte do jardim que fica acima e da parte que fica abaixo da terra. Com raiz bulbo folha talo ramo galho tronco fruto flor pistilo pólen dentro. Mas se não quisermos dizer planta podemos dizer pé. E a sola do pé chamaremos de planta. Sobre o solo. Assim como dizemos planta para o pé diremos palma. Para a mão. Folha de palmeira. E se não quisermos dizer planeta podemos dizer terra. Ou isso. Mas se ele não estiver por perto não podemos chamá-lo de isso.


(Arnaldo Antunes - As coisas)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Não há mais nada após esse tremor?



A carne é triste depois da felação.
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
após esse tremor? Só esperar
outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já se dilui o orgasmo na lembrança
e gosma
escorre lentamente de tua vida.

(Drummond - O amor natural)


sexta-feira, 20 de junho de 2014

... é uma espécie de elogio que se faz tacitamente a si mesmo

- A maior de todas as loucuras - dizia ela - é enrubescer por causa de nossas inclinações naturais; e zombar de qualquer indivíduo que possua gostos singulares é absolutamente tão desumano quanto escarnecer de um homem ou de uma mulher saída zarolha ou coxa do seio de sua mãe; mas convencer os tolos sobre esses princípios racionais é tentar impedir o movimento dos astros. Para o orgulho, há uma espécie de prazer em zombar dos defeitos que se não tem, e essa satisfação é tão doce ao homem e particularmente aos néscios, que é muito raro vê-los renunciar a tal comportamento, este, por sinal, fomenta a malvadez, as frívolas palavras de espírito, os calembures vulgares, e, para a sociedade, isto é, para um grupo de seres que o tédio reúne e a estupidez modifica, é tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer! tão delicioso brilhar às custas dos outros, e proclamar, estigmatizando um vício, que se está bem longe de o possuir... é uma espécie de elogio que se faz tacitamente a si mesmo; por esse preço é lícito inclusive associar-se aos outros, tracejar maquinações secretas a fim de pisar no indivíduo cujo grande erro é não pensar como a maioria dos mortais; e a pessoa volta para casa toda entufada devido à espirituosidade que não lhe faltou, embora com tal conduta só se tenha demonstrado, essencialmente, pedantismo e estupidez.

(Augustine de Villeblanche, ou O Estratagema do Amor / Contos Libertinos - Marquês de Sade)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras.



— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.


Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo."




Eduardo Galeano - O livro dos abraços

sábado, 1 de fevereiro de 2014

e ainda menos decente pôr suas pernas entre as pernas da outra...

Você não deve... nem se despir nem ir para a cama na presença de qualquer outra pessoa. Acima de tudo, a menos que seja casado, não deve ir para a cama na presença de qualquer pessoa do outro sexo.

É ainda menos permissível que pessoas de sexos diferentes durmam na mesma cama, a menos que sejam crianças muito pequenas...

Se for forçado por necessidade inevitável a dividir a cama com outra pessoa do mesmo sexo em uma viagem, não é correto ficar tão perto dela que a perturbe ou mesmo toque, e ainda menos decente pôr suas pernas entre as pernas da outra...

Também é muito incorreto e indelicado divertir-se com conversa e prosa.

Quando se levantar, não deve deixar a cama descoberta, nem pôr sua touca de dormir numa cadeira ou em algum lugar onde possa ser vista.


- 1729: De La Salle, Les Règles la bienséance et de la civilité chrétienns (Rouen, 1729), p. 55.



(Norbert Elias - O Processo Civilizador)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

"Se desonrar alguém alguma virgem, lhe dará um dote e casará com ela."

Tantos cuidados na educação da futura Mme. Pommery não foram empregados debalde, ou simplesmente por afeto paternal. O homem sabia muito bem qual fosse o "preço da virgindade" – pretium pudicitiae. E alegava, para o perceber algum dia, com aqueles versículos do Êxodo:

"Se desonrar alguém alguma virgem, lhe dará um dote e casará com ela.
Se o pai da virgem não quiser o casamento, pagará ao pai tan
to dinheiro quanto às virgens se costuma dar a título de dote."  

( Êx. XXI, 16, 17)

Topou em Praga o estuprador idôneo na pessoa de um ricaço, idoso e mulherengo, que se enamorou lorpamente da donzela. Por índole, ou por desengano, Ivã Pomerikowsky era contrário a casamentos. Por isso, o “dote” foi orçado em nove mil coroas. Pagamento à vista e de uma vez.

À esperta Ida não escaparam, porém, as soturnas maquinações do domador. E, com ofensa evidente do texto sagrado, que aliás desconhecia, entendeu que a ela era devido o preço do diadema virginal; pois era dela, e não do pai. Com esta lógica precoce e grande velhacaria, dispôs as cousas de maneira que ela própria recebeu as nove mil coroas, abotoando-se com o cheque.

Diz-se a propósito que, por peitas e promessas, interessara a preceptora Zoraida na tramoia parricida, para que lhe surtisse o efeito mais seguro e mais fácil a cilada.

E nessa mesma noite, enquanto o gasto libertino roncava no leito, decomposto, Ida mais a cigana subornada rasparam-se do quarto muito sorrateiramente...
(Madame Pommery - Hilário Tácito)