sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

"Se desonrar alguém alguma virgem, lhe dará um dote e casará com ela."

Tantos cuidados na educação da futura Mme. Pommery não foram empregados debalde, ou simplesmente por afeto paternal. O homem sabia muito bem qual fosse o "preço da virgindade" – pretium pudicitiae. E alegava, para o perceber algum dia, com aqueles versículos do Êxodo:

"Se desonrar alguém alguma virgem, lhe dará um dote e casará com ela.
Se o pai da virgem não quiser o casamento, pagará ao pai tan
to dinheiro quanto às virgens se costuma dar a título de dote."  

( Êx. XXI, 16, 17)

Topou em Praga o estuprador idôneo na pessoa de um ricaço, idoso e mulherengo, que se enamorou lorpamente da donzela. Por índole, ou por desengano, Ivã Pomerikowsky era contrário a casamentos. Por isso, o “dote” foi orçado em nove mil coroas. Pagamento à vista e de uma vez.

À esperta Ida não escaparam, porém, as soturnas maquinações do domador. E, com ofensa evidente do texto sagrado, que aliás desconhecia, entendeu que a ela era devido o preço do diadema virginal; pois era dela, e não do pai. Com esta lógica precoce e grande velhacaria, dispôs as cousas de maneira que ela própria recebeu as nove mil coroas, abotoando-se com o cheque.

Diz-se a propósito que, por peitas e promessas, interessara a preceptora Zoraida na tramoia parricida, para que lhe surtisse o efeito mais seguro e mais fácil a cilada.

E nessa mesma noite, enquanto o gasto libertino roncava no leito, decomposto, Ida mais a cigana subornada rasparam-se do quarto muito sorrateiramente...
(Madame Pommery - Hilário Tácito)

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