sexta-feira, 19 de junho de 2015

porque havia de estar triste?

- Vou sobrevivendo a mim própria.

A entoação está longe de condizer com a máscara. Não é trágica, é... horrível: exprime um desespero seco, sem lágrimas, sem piedade. Sim, há nela algo de irremediavelmente ressequido.

A máscara cai; ela sorri.

- Não estou nada triste. Ao constatá-lo, muitas vezes fiquei surpreendida, mas sem razão: porque havia de estar triste? Antigamente, era acessível a paixões duma grande beleza. Odiei com paixão a minha mãe. E mesmo tu - diz ela num desafio - amei-te apaixonadamente.

Fica à espera da réplica. Não digo palavra.
 
- É claro que tudo isso acabou.

- Como é que podes saber?

- Sei. Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão. Sabes? Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil. É preciso ter uma energia, uma generosidade... É preciso uma cegueira... Há até um momento, logo ao princípio, em que se tem de saltar por cima dum precipício: quem reflecte não salta. E eu sei que nunca mais saltarei.

- Porquê?

Deita-me um olhar irónico e não responde.
 
- Agora - diz ela - vivo rodeada pelas minhas paixões defuntas. 


(A náusea - Jean-Paul Sartre)

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