segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Qual é o crime? Que perigo existe em estar nu?

Mas aqueles que sentem medo, que são covardes, tentarão de tudo para compensar o medo que têm da própria nudez. Devido à invenção de tais reparações é que a humanidade está degenerando dia a dia.

O homem deveria ser tão simples a ponto de poder estar nu, despido, inocente e cheio de graça. (... ) Quando não existe mais nada para ocultar, o homem pode se desnudar.

O homem se cobre porque sente que há alguma coisa lá dentro que precisa ser encoberta. Mas quando não há nada para esconder, não é preciso nem vestir roupas. Há uma grande necessidade de um tipo de mundo onde todos os indivíduos sejam tão isentos de culpa, tão puros de mente e tão serenos que sejam capazes de abandonar suas roupas.


Qual é o crime? Que perigo existe em estar nu?

A questão é outra quando as roupas são usadas por outras razões, mas quando são usadas por medo da nudez, isso é desprezível. Usar roupas por causa do terror pela nudez indica uma nudez ainda maior, prova que a mente está contaminada. Mas, hoje em dia, sentimo-nos culpados até mesmo usando roupas, como se ainda não tivéssemos conseguido limpar a existência da nossa nudez interior.

Ah! Deus é tão infantil! Poderia tão facilmente ter criado o homem com roupas.


(Do sexo à supraconsciência - Osho)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"o homem nasce do sexo. todo seu ser existe por causa da prática do sexo. o homem está cheio de energia sexual. a própria energia da vida é a energia do sexo."



Aceite a vida em sua forma pura e natural e floresça em sua plenitude. A própria plenitude o elevará, passo a passo. A própria aceitação do sexo o elevará a picos tão serenos como você nunca imaginou. Se o sexo é carvão, certamente virá o dia em que será diamante. Este é o primeiro princípio. 



(do sexo à supraconsciência - osho)

"é uma sensação avassaladora de absoluta sexualidade"





Muitas mulheres - todos os homens, mas agora quero falar de mulheres - já sentiram e sentem um momento em que são puramente sexo e pulsam sexo por todos os lados e ficam com medo de si mesmas e se descontrolam e compreendem tudo sobre sexo e querem tudo, é uma sensação avassaladora de absoluta sexualidade, um momento em que a sacanagem toma conta de tudo, e ela se sente fêmea, devassa, puta, ela faria tudo, tudo, ela quer foder, ela quer fazer tudo! Toda mulher que não dá a bunda sente vontade de também dar a bunda nessas horas, toda mulher que nunca deixou gozarem em sua boca sente vontade de chupar um pau até que ele esguinche forte em sua boca, toda mulher assim limitada sai desses limites nessas horas, finge que não tem problemas. Todos iguais.



A casa dos budas ditosos - João Ubaldo Ribeiro

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida."

Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus aguentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.


(Carpinejar)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

"furou cada um dos meus cem olhos: - você me deixou!"



No meio do caminho tinha, com força, o amor.
E ele fez de mim sua cama, 
sua chama,
seu consolo em meus contornos.
Mãos estúpidas,
corpo nu,
membro erguido
sobre a sombra da minha inocência.

No meio do caminho...
o amor!
fez do meu corpo morada
e do meu peito vazio
alimento para os desconsolos
dos dias que não passam.

No meio do caminho tinha o amor.
Com a força do vento, 
fez de mim sua cama,
sua chama,
sua lama.

Há sempre o fim.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

o quarto é vazio.

Escrevo estas linhas enquanto uma chuva com vento cai sobre minha vida. Talvez fosse melhor dizer escrevo estas linhas porque há uma chuva fina lá fora, e um vento suave, e essa chuva e esse vento me molham a alma aqui dentro. O certo é que essa chuva oblíqua e esse vento manso me trazem Anita e eu nunca entendi direito essa cisma de Deus. No começo, assim que Anita se foi, a visita do vento e da chuva doía como uma palavra áspera em pleno rosto. Hoje, tempos depois, uma lágrima única, solitária, em lenta queda, teima em descer do olho esquerdo. Quem sabe não exista mais dor, e essa lágrima seja, na verdade, a forma mais pura da saudade.

Quando conheci Anita, e já lá se vão uns trinta anos, um rádio longínquo anunciava o Comício da Central do Brasil.Ela pedalava uma bicicleta, Bristol a marca, e uma calça comprida muito justa insinuava mistérios recônditos. Chovia na praça e um vento leve balançava as copas das árvores e esvoaçava-lhe os cabelos. Ali, sob a chuva e em meio ao vento, deparei o amor do mesmo modo que, mais tarde, entre chuva e vento, saberia a dor.

No dia em que Anita foi embora, deixando um miúdo bilhete, ainda hoje guardado no bolso esquerdo, a chuva era fina e o vento não mais que uma brisa.

Para escapar desse vento e dessa chuva mergulhei na labuta. Era o primeiro a chegar no jornal e o último a sair, altas horas. O barulho ensurdecedor das máquinas, o cheiro de tinta, a algazarra dos gráficos subtraíam-me do mundo. Nunca mais aquela chuva, nem aquele vento.

Até que um dia, ao escrever uma matéria, olhei pela janela e então, o susto. Lá estava ela, a chuva, e ele, o vento. Fina e regular, ela, calmo e sem pressa, ele. O pranto, nessa época, caía aos borbotões e os dedos amassavam o bilhete no bolso esquerdo.


Nunca mais me abandonaram, o vento e a chuva. Resolvi, então, conviver com eles. Por isso é que, quando chove lá fora, como agora, e um vento leve sopra em minha direção, tomo do papel e escrevo. Hoje, estas linhas.


Amanhã, quem sabe, ou depois, outras, em que eu conte que essa lágrima que teima em cair do olho esquerdo quando a chuva vem e o vento zune não é mais uma lágrima, é um orvalho. Pode ser que, neste momento, eu tenha recuperado Anita.


(Airton Sampaio - A chuva que me traz Anita)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

é que me custa acordar sem o auxílio de incentivo para a vida.

A tristeza recaiu sobre mim e não mais me deixou. De agora em diante, se me atraso na cama, é que me custa acordar sem o auxílio de incentivo para a vida. Hesitava em mergulhar sozinha na monotonia do dia. Uma vez de pé, ficava tentada a tornar à cama e lá permanecer até a noite. Atirava-me ao trabalho, ficava horas seguidas à mesa de escrever, nutrindo-me de suco de frutas. Quando parava, ao fim da tarde, tinha a testa escaldante e os ossos doloridos. Acontecia-me adormecer tão pesadamente sobre o diva que, ao acordar, experimentava um angustiante estupor: tal como se minha consciência, emergindo anonimamente da noite, hesitasse antes de se reencarnar. Ou era o cenário familiar que eu contemplava com olhos incrédulos: avesso ilusório e cintilante do Nada onde mergulhara.



(A mulher desiludida - SIMONE DE BEAUVOIR)

terça-feira, 24 de maio de 2016

A chave gira, a porta abre, um corpo some.

A chave gira, a porta abre, os corpos entram. A porta fecha, a chave gira. Ela tira, pela cabeça, o vestido roto, despe-se da calça esburacada, abandona os trapos no chão, dá dois passos, deita-se de costas, abre-se. Ele, nu, cresce sobre ela, penetra-a.

Lutam. O galope cadenciado, depois desvairado, encobre-se pelo range-range da cama. Respirações opressas, corações disparados, o sangue salta um ao outro, lateja nas têmporas, o suor poreja, banha as testas, desce pelos narizes, forma bigodes, as costas alagam-se. As mãos vadiam, umas varam cabelos, outras apalpam seios, as bocas se chupam, as salivas misturam-se, dentes cravam-se. Agora aceleram, escalam estertorosamente a montanha, atingem o topo e caem, lentamente, flutuantes, até que, num lago sereno, mergulham.

Corpos de pé, vestidos. Dois passos, a porta. O beijo prolongado, olhos nos olhos: quando de novo? Uma cédula estendida. Os olhos, ofendidos, repetem,: quando? A cédula se retrai, opaca-se no bolso, qualquer dia. Não disse, mas foi mesmo que dissesse, qualquer dia.

A chave gira, a porta abre, um corpo some. No cubículo em penumbra (numa mesinha de canto tremula a chama tíbia de uma lamparina) ela, solitária, olha a bacia d'água, atira-se sobre o leito, dorme imediata, profundamente: a fome enganada, a miséria esquecida, o amor olvidado.

Na rua em penumbra (nos casebres do meretrício esbate-se a luz, tíbia, do luar) ele, solitário, levita, sente-se amado, querido, desejado.

De repente, os galos. É preciso apressar o passo, enfrentar da esposa a ira.

( O canto dos galos - Airton Sampaio - Contos da terra do sol)

domingo, 1 de maio de 2016

Sentia pudor deles não terem tido pudor.

Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato. Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela. Na televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time. Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão.

Até as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não terem tido pudor.

Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus. Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles, embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes daquela cidade maldita que era Londres. Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando tinha um instante de folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as suas cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito.

Estava assim deitada na cama com a sua solidão. O embora.

(Clarice Lispector - A via crucis do corpo)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

"O que eu posso fazer? Não te amo mais..."

Quando alguém é abandonado, se convence de que não foi o que deveria ter sido e não deu o que deveria ter dado ao outro. A pessoa se responsabiliza por ter falhado. Este é o momento em que se deseja morrer, de alguma doença ou de um acidente, porque não é suportável a ideia de que o abandono foi causado por uma insuficiência própria. Os suicídios se situam aí, ou seja, quando a relação é vivida como fracasso e surge a certeza da incapacidade de manter o outro interessado.
O sentimento de desvalorização é intenso. O filósofo dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) expressou bem essa ideia: “Desesperar-se por qualquer coisa não é ainda, pois, o verdadeiro desespero. É o princípio; é como quando o médico diz que a doença ainda não se manifestou. O estágio próximo é a manifestação evidente: desesperar-se de si mesmo”.

O sentimento de culpa tortura a alma da mulher abandonada. Ela repete mil vezes para si mesma que não conseguiu manter o amor do homem, que não tem atrativos, que tudo é culpa dela. O ódio que sente do homem que a abandona e da mulher que o roubou transforma-se em ódio de si mesma. Assim como a poeta grega Safo, que, abandonada pelo amante, se atirou ao mar do rochedo de Leucade, ela opta pelo suicídio.
Quando o homem avisa que vai abandoná-la e diz: “Adeus... Não chore, por favor... O que eu posso fazer? Não te amo mais... Não chore. Não quero que você sofra... Adeus”. Ele deixou de amá-la, e ela deixou de amar a si mesma. Sem perceber, ele já começou a matá-la em sua identidade de amante, de companheira, de mulher. A morte física é a continuação da morte psíquica provocada pelo abandono.
Quanto mais violento o ato suicida, mais evidente é o desejo de desforra. “A mulher rejeitada desliga a máquina social da aparência que mantinha viva e escolhe a autoeutanásia para jogar na cara de seu companheiro mal-agradecido o quanto o amou e o quanto sofreu por sua culpa. O desejo de desforra é o pano de fundo mais comum do ato suicida. Ferida, a vítima fraudada da paixão deseja que quem a abandonou nunca se esqueça do terrível mal que lhe causou.”

(O livro do amor - Regina Navarro Lins)