segunda-feira, 30 de maio de 2016

o quarto é vazio.

Escrevo estas linhas enquanto uma chuva com vento cai sobre minha vida. Talvez fosse melhor dizer escrevo estas linhas porque há uma chuva fina lá fora, e um vento suave, e essa chuva e esse vento me molham a alma aqui dentro. O certo é que essa chuva oblíqua e esse vento manso me trazem Anita e eu nunca entendi direito essa cisma de Deus. No começo, assim que Anita se foi, a visita do vento e da chuva doía como uma palavra áspera em pleno rosto. Hoje, tempos depois, uma lágrima única, solitária, em lenta queda, teima em descer do olho esquerdo. Quem sabe não exista mais dor, e essa lágrima seja, na verdade, a forma mais pura da saudade.

Quando conheci Anita, e já lá se vão uns trinta anos, um rádio longínquo anunciava o Comício da Central do Brasil.Ela pedalava uma bicicleta, Bristol a marca, e uma calça comprida muito justa insinuava mistérios recônditos. Chovia na praça e um vento leve balançava as copas das árvores e esvoaçava-lhe os cabelos. Ali, sob a chuva e em meio ao vento, deparei o amor do mesmo modo que, mais tarde, entre chuva e vento, saberia a dor.

No dia em que Anita foi embora, deixando um miúdo bilhete, ainda hoje guardado no bolso esquerdo, a chuva era fina e o vento não mais que uma brisa.

Para escapar desse vento e dessa chuva mergulhei na labuta. Era o primeiro a chegar no jornal e o último a sair, altas horas. O barulho ensurdecedor das máquinas, o cheiro de tinta, a algazarra dos gráficos subtraíam-me do mundo. Nunca mais aquela chuva, nem aquele vento.

Até que um dia, ao escrever uma matéria, olhei pela janela e então, o susto. Lá estava ela, a chuva, e ele, o vento. Fina e regular, ela, calmo e sem pressa, ele. O pranto, nessa época, caía aos borbotões e os dedos amassavam o bilhete no bolso esquerdo.


Nunca mais me abandonaram, o vento e a chuva. Resolvi, então, conviver com eles. Por isso é que, quando chove lá fora, como agora, e um vento leve sopra em minha direção, tomo do papel e escrevo. Hoje, estas linhas.


Amanhã, quem sabe, ou depois, outras, em que eu conte que essa lágrima que teima em cair do olho esquerdo quando a chuva vem e o vento zune não é mais uma lágrima, é um orvalho. Pode ser que, neste momento, eu tenha recuperado Anita.


(Airton Sampaio - A chuva que me traz Anita)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

é que me custa acordar sem o auxílio de incentivo para a vida.

A tristeza recaiu sobre mim e não mais me deixou. De agora em diante, se me atraso na cama, é que me custa acordar sem o auxílio de incentivo para a vida. Hesitava em mergulhar sozinha na monotonia do dia. Uma vez de pé, ficava tentada a tornar à cama e lá permanecer até a noite. Atirava-me ao trabalho, ficava horas seguidas à mesa de escrever, nutrindo-me de suco de frutas. Quando parava, ao fim da tarde, tinha a testa escaldante e os ossos doloridos. Acontecia-me adormecer tão pesadamente sobre o diva que, ao acordar, experimentava um angustiante estupor: tal como se minha consciência, emergindo anonimamente da noite, hesitasse antes de se reencarnar. Ou era o cenário familiar que eu contemplava com olhos incrédulos: avesso ilusório e cintilante do Nada onde mergulhara.



(A mulher desiludida - SIMONE DE BEAUVOIR)

terça-feira, 24 de maio de 2016

A chave gira, a porta abre, um corpo some.

A chave gira, a porta abre, os corpos entram. A porta fecha, a chave gira. Ela tira, pela cabeça, o vestido roto, despe-se da calça esburacada, abandona os trapos no chão, dá dois passos, deita-se de costas, abre-se. Ele, nu, cresce sobre ela, penetra-a.

Lutam. O galope cadenciado, depois desvairado, encobre-se pelo range-range da cama. Respirações opressas, corações disparados, o sangue salta um ao outro, lateja nas têmporas, o suor poreja, banha as testas, desce pelos narizes, forma bigodes, as costas alagam-se. As mãos vadiam, umas varam cabelos, outras apalpam seios, as bocas se chupam, as salivas misturam-se, dentes cravam-se. Agora aceleram, escalam estertorosamente a montanha, atingem o topo e caem, lentamente, flutuantes, até que, num lago sereno, mergulham.

Corpos de pé, vestidos. Dois passos, a porta. O beijo prolongado, olhos nos olhos: quando de novo? Uma cédula estendida. Os olhos, ofendidos, repetem,: quando? A cédula se retrai, opaca-se no bolso, qualquer dia. Não disse, mas foi mesmo que dissesse, qualquer dia.

A chave gira, a porta abre, um corpo some. No cubículo em penumbra (numa mesinha de canto tremula a chama tíbia de uma lamparina) ela, solitária, olha a bacia d'água, atira-se sobre o leito, dorme imediata, profundamente: a fome enganada, a miséria esquecida, o amor olvidado.

Na rua em penumbra (nos casebres do meretrício esbate-se a luz, tíbia, do luar) ele, solitário, levita, sente-se amado, querido, desejado.

De repente, os galos. É preciso apressar o passo, enfrentar da esposa a ira.

( O canto dos galos - Airton Sampaio - Contos da terra do sol)

domingo, 1 de maio de 2016

Sentia pudor deles não terem tido pudor.

Suspirou muito porque era difícil viver só. A solidão a esmagava. Terrível não ter uma só pessoa para conversar. Era a criatura mais solitária que conhecia. Até Mrs. Cabot tinha um gato. Ruth Algrave não tinha bicho nenhum: eram bestiais demais para o seu gosto. Nem tinha televisão. Por dois motivos: faltava-lhe dinheiro e não queria ficar vendo as imoralidades que apareciam na tela. Na televisão de Mrs. Cabot vira um homem beijando uma mulher na boca. E isso sem falar no perigo da transmissão de micróbios. Ah, se pudesse escreveria todos os dias uma carta de protesto para o Time. Mas não adiantava protestar, ao que parecia. A falta de vergonha estava no ar. Até já vira um cachorro com uma cadela. Ficou impressionada. Mas se assim Deus queria, que então assim fosse. Mas ninguém a tocaria jamais, pensou. Ficava curtindo a solidão.

Até as crianças eram imorais. Evitava-as. E lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe. Sentia pudor deles não terem tido pudor.

Como deixava arroz cru na janela, os pombos vinham visitá-la. Às vezes entravam-lhe no quarto. Eram enviados por Deus. Tão inocentes. Arrulhando. Mas era meio imoral o arrulho deles, embora menos do que ver mulher quase nua na televisão. Ia amanhã sem falta escrever uma carta protestando contra os maus costumes daquela cidade maldita que era Londres. Chegara uma vez a ver uma fila de viciados junto de uma farmácia, esperando a vez de tomarem uma aplicação. Como é que a Rainha permitia? Mistério. Escreveria mais uma carta denunciando a própria Rainha. Escrevia bem, sem erros de gramática e batia as cartas na máquina do escritório quando tinha um instante de folga. Mr. Clairson, seu chefe, elogiava muito as suas cartas publicadas. Até dissera que ela poderia um dia vir a ser escritora. Ficara orgulhosa e agradecera muito.

Estava assim deitada na cama com a sua solidão. O embora.

(Clarice Lispector - A via crucis do corpo)