terça-feira, 24 de maio de 2016

A chave gira, a porta abre, um corpo some.

A chave gira, a porta abre, os corpos entram. A porta fecha, a chave gira. Ela tira, pela cabeça, o vestido roto, despe-se da calça esburacada, abandona os trapos no chão, dá dois passos, deita-se de costas, abre-se. Ele, nu, cresce sobre ela, penetra-a.

Lutam. O galope cadenciado, depois desvairado, encobre-se pelo range-range da cama. Respirações opressas, corações disparados, o sangue salta um ao outro, lateja nas têmporas, o suor poreja, banha as testas, desce pelos narizes, forma bigodes, as costas alagam-se. As mãos vadiam, umas varam cabelos, outras apalpam seios, as bocas se chupam, as salivas misturam-se, dentes cravam-se. Agora aceleram, escalam estertorosamente a montanha, atingem o topo e caem, lentamente, flutuantes, até que, num lago sereno, mergulham.

Corpos de pé, vestidos. Dois passos, a porta. O beijo prolongado, olhos nos olhos: quando de novo? Uma cédula estendida. Os olhos, ofendidos, repetem,: quando? A cédula se retrai, opaca-se no bolso, qualquer dia. Não disse, mas foi mesmo que dissesse, qualquer dia.

A chave gira, a porta abre, um corpo some. No cubículo em penumbra (numa mesinha de canto tremula a chama tíbia de uma lamparina) ela, solitária, olha a bacia d'água, atira-se sobre o leito, dorme imediata, profundamente: a fome enganada, a miséria esquecida, o amor olvidado.

Na rua em penumbra (nos casebres do meretrício esbate-se a luz, tíbia, do luar) ele, solitário, levita, sente-se amado, querido, desejado.

De repente, os galos. É preciso apressar o passo, enfrentar da esposa a ira.

( O canto dos galos - Airton Sampaio - Contos da terra do sol)

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